Excesso de malhação pode prejudicar o cérebro, aponta estudo

Excesso de malhação pode prejudicar o cérebro, aponta estudo

A cena correu o mundo — só não se pode dizer que “viralizou” porque o futuramente célebre ‘‘www’’ da internet nem sequer existia. Era 1984, Jogos Olímpicos de Los Angeles (EUA). Sob o sol forte, a pista inacreditavelmente endurecida, a suíça Gabriela Andersen-Schiess, então com 39 anos, foi tomada por cãibras insuportáveis e uma rajada de dores a 400 metros do fim da maratona. Cambaleante, ela começou a ser aplaudida de pé pelas 77 000 pessoas que lotavam o estádio Memorial Coliseum e cruzou a linha de chegada na 37ª colocação.

Desabou. Exaurida, Gabriela foi prontamente atendida por uma equipe de médicos. Até aquela edição da Olimpíada, nunca se vira a tradicional prova ser disputada por mulheres. “Eu só tentava continuar. Procurei relaxar, ganhar controle. Tive apagões mentais. Lembro de parte da reta final, mas de outra não lembro”, disse ela, um dia após a proeza. Um estudo publicado na quinta-feira 26 no periódico científico americano Current Biology revelou o que provavelmente aconteceu no cérebro da maratonista no momento de extrema fadiga. Quando se exagera nos exercícios físicos, não é apenas o corpo que sente — o cérebro também sofre.

O trabalho, realizado por pesquisadores do Hôpital de la Pitié-Salpêtrière, em Paris, foi elaborado com base em um levantamento feito com 37 homens, todos maratonistas ou triatletas, com média de idade de 35 anos. Os participantes foram divididos em dois grupos: enquanto um deles mantinha a rotina normal de treinos físicos, o outro aumentava em 40% a duração da atividade. Os testes duraram três semanas.

A cada dois dias, pedia-se aos atletas que respondessem a questionários em que lhes era perguntado sobre a sensação de cansaço. Além disso, eram submetidos a ressonâncias magnéticas para analisar o impacto dos exercícios no cérebro.

O resultado encontrado foi que o excesso de malhação, até mesmo em pessoas em plena forma, causa uma preocupante fadiga cerebral. Constatou-se que, em comparação com os participantes que continuaram no ritmo regular, os que aumentaram sua atividade se diziam quatro vezes mais cansados no plano mental. A sensação foi comprovada por análises do cérebro dos esportistas. Naqueles que passavam do limite nos treinos, verificou-se uma diminuição da atividade na área encefálica responsável pela tomada de decisões.

A descoberta evidencia uma relação direta entre o esforço corporal e o cognitivo. Os atletas com estafa mental fizeram, no período da pesquisa, escolhas mais impulsivas em testes que avaliavam suas decisões, como as de âmbito financeiro. Os cientistas descobriram, por exemplo, que, quando exaustos, os participantes tendiam a optar pelas piores sugestões de investimentos financeiros.

Se malhar em excesso prejudica o cérebro, isso significa que ele também é um músculo? A resposta é um sonoro “não”. No entanto, a mente pode ser, sim, exercitada. Um caminho para isso é se dedicar a esportes como o xadrez. São atividades cujos treinos aprimoram a memória e o pensamento estratégico. Mas mesmo um esforço hercúleo de concentração traz menos fadiga ao cérebro do que os exercícios físicos.

Tomem-se como exemplo os enfrentamentos entre enxadristas e supercomputadores. Em 1996, depois de seis partidas (o equivalente no xadrez a um jogo inteiro), o azerbaidjano Garry Kasparov, campeão mundial, foi derrotado pelo robô Deep Blue. Contudo, após a disputa, Kasparov não demonstrava os sinais de apagões mentais que Gabriela Andersen-­Schiess apresentou no fim da maratona. Como sugeriu o estudo recém-divulgado, pode ser que, sob intensa pressão, o cérebro aguente mais que o resto do organismo. Portanto, o ideal é o equilíbrio. O corpo precisa estar são para que a mente também possa estar.

Fonte: veja.abril

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